sexta-feira, 14 de agosto de 2009

EU TIRO O MEU CHAPÉU



Francisco Sobral ou Chico Canguru como era mais conhecido, era um tipo sisudo e reservado que morava com suas duas irmãs, "Dona Maria" e "Badeca " em um pequeno sítio à rua Padre Chacom, antiga rua do Sertão em Areia. Todos solteiros, viviam praticamente isolados da sociedade areiense, observando a cidade crescer e se desenvolver, debruçados em uma janela de sua humilde casinha.
Seu Chico, que se dizia músico, costumava freqüentar a mercearia do meu Pai, e ali, entre um gole e outro de cachaça, dava evasão aos seus sentimentos de boêmio inveterado entoando músicas de Nelson Gonçalves, Nilton César, e vários outros interpretes de sua época, sentimentos estes, alimentados pelo jovem também amante da música, hoje, maestro e major Edmundo Alves, meu irmão.

Apesar de gostar de beber, Chico Canguru, era uma figura excêntrica, de muito respeito e conservador. Seus dedos eram sua bateria e o som dos seus lábios seu instrumento. Uma das músicas mais preferidas da rapaziada era sobre os 25 bichos, quando ele cantava que:
“O bicho homem é um bicho sacrificado...
Pelas mulheres vive preso e acorrentado...
Jogo no bicho para ver o numerado...
Um é avestruz que é um bicho admirado...
Dois é águia...
Três é burro, para o homem andar montado
Quatro é borboleta, tem as asas acinzentadas
E cinco vai dar o cachorro que do homem é estimado... (E assim sucessivamente!).

Com a morte de suas irmãs, uma após a outra, seu Chico foi ficando sozinho. Até, que no início dos anos 70, uma velha paixão aflora na vida do velho boêmio, na figura de sua primeira namorada e agora viúva Dona Severina, mulher muito direita e da irmandade do coração de Jesus. Sozinhos, os dois corações não resistem à antiga paixão recolhida e decidem viver maritalmente, sob o repúdio do Padre Ruy, pároco da cidade, que sabedor do ocorrido resolve intervir, fazendo o casamento dos dois pombinhos apaixonados.

Chico Canguru, deixa de beber, muda de ares e ao lado de Dona Severina foi feliz por muitos e muitos anos, deixando nos corações de quem o conheceu muitas lembranças e afetuosas recordações de um passado longínquo. Para ele eu tiro o meu chapéu!!!

2 comentários:

Alves disse...

Faltou a nobre pesquisadora acrescentar que Dona Severina era madrinha de nosso pai, que estar completando oitenta e quatro anos hoje, e que continua vivo enclausurado no lugar mais profundo do meu eu.
Nosso pai estar vivo,nosso pai não estar morto.

Dora disse...

Eu também tiro o chapéu pra ele (aquele que Ana deu a W... rs rs rs)
Adorei o post. E esse blog é massa!